Quando acontece uma desgraça na vida da gente,como o tumor que eu tive,ficamos nos perguntando qual foi o motivo de isto ter acontecido.Além da genética,da alimentação inadequada e do "stress",também me passou pela cabeça que o câncer fosse um "castigo" por algum erro cometido em "outras vidas" ou uma provação pela qual eu devesse passar.Tudo passa pela nossa cabeça,menos o óbvio,que queremos evitar.
Cometemos sempre o mesmo erro,até que o corpo resolve se manifestar,como se fosse um "grito"de advertência.Se não fosse assim,eu continuaria agindo da mesma maneira.
Tempos atrás,eu achava que o câncer era a somatização de um problema.Notava que,raramente,pessoas "de bem com a vida" tinham câncer."De bem com a vida",para mim,significa ter uma vida regrada,com boa alimentação,prática de exercícios físicos,relacionamentos saudáveis e,acima de tudo,conseguir manter uma "paz interior",apesar dos problemas que a vida nos impõe.Eu nunca fui uma pessoa "de bem com a vida".
O meu problema sempre foi o de não saber resolver os problemas de uma maneira saudável para mim.
Eu sempre quis evitar um "mal maior",então me calava.Na verdade,sempre me sacrifiquei pelos outros,que nem estavam ligando para mim e,talvez,nem soubessem que eu estava sofrendo.Eu sempre tentei evitar brigas.Sempre tive horror a isto e sempre me calei.
Os sapos que engoli,as injustiças que sofri e aceitei pacificamente,as ofensas,agressões,humilhações e traições que me impuseram...Tudo isto eu "enterrei"dentro de mim.Eu tentei ignorar,pois me disseram que quem é superior ignora este tipo de coisa.Mentira!
Minha amiga de infância,que não é médica mas tem um familiar que luta há 8 anos contra um câncer,tenta me convencer de que o câncer é multifatorial.Eu concordo,em parte.Pois acho que,no meu caso,foi uma somatização.
Assisto o filme "Livre",estrelado por Reese Witherspoon,e baseado no livro de Cheryl Strayed,em que a protagonista resolve fazer a trilha de 4.200 Km, que inclui toda a costa Oeste dos
Estados Unidos, da fronteira com o México até o Canadá,conhecida como
"Pacific Crest Trail",sem experiência nenhuma no esporte,em busca
de autoconhecimento.E também como forma de expurgar o passado,após o seu divórcio e a morte de sua mãe,causada por um câncer.
"Bobbi",a mãe da personagem principal,sofre com um marido alcoolista que a maltrata,sistematicamente,e,mesmo assim,procura encorajar os filhos e mostrar-lhes o lado positivo da vida.Acaba se divorciando dele,mas desenvolve um tumor,e morre aos 45 anos.Esta história é baseada em fatos reais.
Para expurgar o sofrimento do passado,depois de um período extremamente autodestrutivo,Cheryl decide caminhar pela longa trilha,passando por montanhas,desertos,neves e atravessando rios.Arrisca-se a toda sorte de perigos,inclusive,ficando sem água.
Do que não se é capaz para se desfazer do sofrimento...
E percebo que eu também estou fazendo uma "trilha",desde o meu diagnóstico.Como não tenho condições físicas de ir até o Caminho de Santiago de Compostela,o meu "caminho" é em casa e "online".
É mais prático,mas não menos isento de sofrimento.
Pena que eu não posso gritar,como faz Cheryl,no alto da montanha,liberando toda a dor causada pela perda de sua mãe.
Ainda assim,eu espero conseguir passar a minha vida "a limpo" e,depois de liberar a minha dor reprimida,me tornar uma pessoa melhor.

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